“Fractured Currents” – um ponto fixo na tempestade

A segunda faixa de “Pulse of Boundless Light” é a mais curta das nove — 4:19. E a mais violenta.

A primeira ficava parada. Esta luta o tempo todo, só que ainda não se sabe se na direção certa.

Correntes partidas

O título é mais preciso do que parece. “Fractured currents” não são uma tempestade — são correntes que vão para lados diferentes e rasgam a água entre si. Não existe uma direção única contra a qual lutar.

A primeira estrofe: “In fractured currents’ roar, my soul’s torn by the storm” — no rugido das correntes partidas, minha alma é rasgada pela tempestade. Rasgada, não afogada. A diferença importa: afogar é trabalho de uma força só, rasgar é de várias ao mesmo tempo.

É assim que é uma semana em que tudo acontece junto e cada assunto puxa para um lado. Não há um problema a resolver. Há seis, e todos urgentes.

Uma luz basta

Na segunda estrofe está a frase em que a faixa toda se apoia: “Stars flicker in the void, but her spark still burns bright” — as estrelas tremeluzem no vazio, mas a faísca dela continua queimando forte.

Para manter o rumo não é preciso um mapa. É preciso um ponto que não se mexa. Ele não precisa estar perto nem fazer nada — precisa estar onde estava ontem.

Por isso esta faixa não é sobre resgate. Ela não salva ninguém aqui, nem sequer aparece. Ela apenas brilha no mesmo lugar, e isso basta para que outra pessoa saiba onde fica o alto.

A mais curta e a mais densa

Quatro e dezenove — menos do que tudo o mais no disco. E ainda assim cabem três estrofes, dois refrões e uma ponte, de modo que nada tem espaço para respirar.

Isso é decisão, não descuido. Uma faixa sobre ser puxado para vários lados não pode ser confortável de ouvir. As partes entram uma por cima da outra e a bateria não sai do ritmo cheio em nenhum momento.

O único respiro está na ponte, e por dois versos apenas: “No storm can tear us down, no dark can hold us back”. Logo depois o refrão volta e tudo aperta de novo.

O que o ouvinte ganha com isso

Se você está numa daquelas semanas em que tudo puxa ao mesmo tempo, esta faixa não vai dizer o que fazer. Diz só isto: escolha um ponto e segure nele até o vento parar.

O ponto não precisa ser grande. Nesta faixa é a luz de alguém que nem sabe disso. Pode ser um telefonema por semana ou a hora em que você sempre sai de casa.

Na terceira faixa essa luz distante deixa de ser distante. E é a mais longa do disco, o que não é coincidência.

Você pode ouvir a faixa no Spotify, Apple Music e YouTube Music.

No próximo post falo sobre “Orbit of Our Dawn” — a faixa em que o “eu” vira “nós”.

Obrigado por estar aqui.

Adam Smentoch
criador do projeto Dust Anthem

Ouvir Fractured Currents Pulse of Boundless Light