“Echoes in the Void” – quando ninguém responde

A solidão tem dois tipos. O primeiro é a falta de pessoas, e esse dá para resolver. O segundo é estar entre pessoas e não alcançar ninguém — esse é bem pior, porque não se vê o que exatamente consertar.

“Echoes in the Void” é a sexta faixa do “From Dust to Ballads” e a coisa mais espaçosa dele. É sobre o segundo tipo.

Um silêncio que pesa

A primeira estrofe: “The void calls my name, it’s a weight on my soul. A silence so heavy, it’s taking its toll” — o vazio chama o meu nome, é um peso na alma; um silêncio tão pesado que vai cobrando o seu preço.

Repare que o vazio aqui não é uma ausência. Ele chama, tem peso, faz algo. Isto não é nada — é a presença de algo que não se consegue nomear. Quem já passou uma noite num apartamento cheio de coisas e sentiu que não havia ninguém nele sabe do que eu falo.

O refrão não resolve isso: “Echoes in the void, they fade in the night” — ecos no vazio se apagam na noite. Eco é, afinal, a sua própria voz voltando. Quando a única resposta que você recebe é você mesmo, passa a vontade de falar.

O lugar do disco em que nada acontece

Depois do amanhecer da faixa anterior, aqui vem a estagnação. A letra não vai a lugar nenhum; as estrofes descrevem o mesmo estado três vezes, de ângulos diferentes. É o único lugar do disco em que fiz isso de propósito.

A história que eu conto ao longo de três discos está sempre indo para algum lado. Aqui ela para, porque essa é a verdade sobre esse estado — vazio não tem trama. Dá para ficar nele semanas e não ter nada para contar.

O ápice só vem na ponte: “No silence can chain me, no void can define” — nenhum silêncio me acorrenta, nenhum vazio me define. Uma única frase de recusa depois de quatro minutos descrevendo algo que não suporta recusa.

O reverb como tema

Nesta faixa o reverb não é efeito, é conteúdo. A voz está aqui mais longe de quem ouve do que em qualquer outro ponto do disco e é a única com uma repetição audível — literalmente o eco do título.

Há poucos instrumentos, mas cada um ocupa muito espaço. A guitarra toca notas isoladas com decaimento longo, o baixo sustenta uma nota por compassos inteiros. Eu queria que o espaço entre os sons fosse audivelmente maior do que os próprios sons.

É a faixa que mais se diferencia de qualquer coisa do segundo disco. Lá tudo era perto e denso. Aqui é longe e vazio — e essa é toda a diferença entre “Defiance” e “Ballads”.

Com quem você fala

Não tenho bom conselho para isso. Dizer a alguém nesse estado “converse com alguém” é um pouco como dizer a uma pessoa sem dinheiro que compre algo.

Só sei que o vazio tem uma fraqueza: ele lida muito mal com o concreto. Não grandes conversas sobre si mesmo, mas uma tarefa pequena e comum com outra pessoa — resolver algo junto, um caminho junto, uma única pergunta sobre algo que de fato te interessa.

Esta faixa não é, portanto, um incentivo. É mais uma prova de que alguém já esteve lá e saiu, mesmo que na própria faixa ele ainda não saiba disso.

Você ouve a faixa no Spotify, no Apple Music e no YouTube Music.

O próximo post sai no dia do lançamento e é sobre “Broken Vows” — a faixa mais longa da primeira metade do disco.

Obrigado por estar aqui.

Adam Smentoch
criador do projeto Dust Anthem

Ouvir Echoes in the Void From Dust to Ballads