“This Moment” – todo o resto pode esperar

As duas primeiras faixas deste disco olham para trás; toda a segunda metade olha para frente. “This Moment” fica entre elas e não faz nem uma coisa nem outra — e essa é a sua função inteira.

É a faixa mais terna que escrevi neste projeto e, ao mesmo tempo, a mais direta. Não há nela nenhuma metáfora para resolver.

Um lugar ao qual a gente pertence

A faixa abre com: “This moment, it shows me where I belong. In the dust of my past, your love makes me strong” — este momento me mostra onde é o meu lugar; no pó do meu passado, o seu amor me deixa forte.

Repare que o pó não desaparece. Este disco todo fala de o passado não ir embora — e aqui, pela primeira vez, descobre-se que ele não precisa ir. Dá para estar de pé sobre o pó e estar forte ao mesmo tempo. Não é contradição; são duas coisas acontecendo juntas.

No pré-refrão está a frase de que mais gosto no disco: “In this moment I live, where our love conquers all” — neste momento eu vivo. Não “vou viver”, não “vivi”. Eu vivo, agora. Soa banal até você tentar fazer isso.

O tempo mais difícil de habitar

A gente sabe morar no passado — é confortável, porque já aconteceu e nada ali nos surpreende. A gente sabe morar no futuro, porque é possível mobiliá-lo exatamente como se quer.

O presente é o único tempo em que algo depende de nós e é justamente por isso que dele se sai com tanta vontade. Basta um instante de atenção dado ao que foi ou ao que será e já não estamos aqui — e as pessoas ao lado ficam sozinhas com alguém ausente.

Esta faixa está no meio do disco por um motivo. Depois do luto e da rebeldia silenciosa precisava vir algo que não fosse nem acerto de contas nem plano. Sem esse ponto o álbum seria só uma passagem de um peso para o outro.

Uma voz sem pressa

É a mais longa das quatro primeiras faixas e a única em que eu esticei de propósito as vogais no refrão. Escrito fica estranho, porque as letras se repetem, mas a ideia era a frase ter de empurrar o ritmo para fora do lugar.

Há aqui menos instrumentos do que em qualquer outro ponto do disco: piano, baixo, uma bateria discreta e uma linha de cordas. Gravei a voz mais baixo que de costume, porque numa letra assim qualquer tensão na voz se escuta como atuação.

Há também uma decisão que provavelmente ninguém vai notar: nesta faixa não existe uma única voz dobrada. Todas as outras têm uma segunda camada em algum lugar. Esta está sozinha, porque era para ser uma conversa, não um coro.

O que fazer com isso

Não escrevi esta faixa como conselho. Não sei viver o momento melhor que ninguém e passo a maior parte dos dias nos outros dois tempos.

Notei, porém, que uma coisa simples ajuda: perguntar a si mesmo o que está acontecendo agora. Não na semana que vem, não no ano passado. Agora. A resposta costuma ser decepcionantemente comum — estou sentado, está chovendo, alguém ao meu lado está falando comigo. E normalmente é essa terceira coisa a mais importante de todas.

Se esta faixa dá alguma coisa, é exatamente isso: cinco minutos em que não é preciso ir a lugar nenhum.

Você ouve a faixa no Spotify, no Apple Music e no YouTube Music.

No próximo post eu falo de “Fallen Stars” — do que sobra dos sonhos que não se realizaram.

Obrigado por estar aqui.

Adam Smentoch
criador do projeto Dust Anthem

Ouvir This Moment From Dust to Ballads