“Mystery” terminava com a palavra “home”. A segunda faixa do disco termina num lugar completamente diferente: “this is the end”.
“Blinding Love” é o mesmo fascínio, só que mostrado pelo lado escuro. O mistério deixa de ser um oceano em que se nada e passa a ser uma lâmina.
Uma lâmina no veludo
O primeiro verso: “Her love is a blade, wrapped in velvet and night” — o amor dela é uma lâmina envolta em veludo e noite.
Logo adiante: “It cuts through my veins, with a poisonous light” — corta as minhas veias com uma luz venenosa. E: “I reach for her touch, knowing it burns my skin” — busco o toque dela, sabendo que ele queima a minha pele.
O texto inteiro se apoia nessa única combinação: algo macio e, por baixo, algo que fere.
Sei que é veneno
O verso mais importante está na segunda estrofe: “I know she’s the poison, but I drink every drop” — sei que ela é o veneno, mas bebo cada gota.
O pré-refrão diz o mesmo de forma ainda mais simples: “In her dangerous embrace… I choose to stay…” — nos braços perigosos dela, escolho ficar.
Não é uma canção sobre alguém enganado. É uma canção sobre alguém que vê tudo e mesmo assim fica. “This love is my ruin, my beautiful chain” — este amor é a minha ruína, a minha bela corrente.
De “her” para “your”
As estrofes falam dela na terceira pessoa: “her love”, “her kiss”, “her whisper”. A faixa só se dirige a ela no refrão.
“Your” aparece aqui cinco vezes, e sempre no refrão ou no outro: “In your deadly light… I fall asleep…” — na tua luz mortal, eu adormeço.
Ao longo das estrofes inteiras se fala dela para alguém de fora. Só se fala com ela no momento da queda.
O fim em vez de casa
O outro: “From the blinding of love… through the pain I descend… / In your dangerous light… this is the end…” — pela dor eu desço; na tua luz perigosa — é o fim.
Quase todos os outros deste disco terminam ou em casa, ou no fim. “Blinding Love” é a primeira faixa que escolhe o fim.
Vale guardar a palavra “blinding”. Ela aparece aqui quinze vezes e volta na próxima faixa — só que com um sentido completamente diferente.
Você pode ouvir a faixa no Spotify, Apple Music e YouTube Music.
No próximo post falo sobre “Silence in Her Arms” — sobre uma intimidade em que as palavras só atrapalham.
Obrigado por estar aqui.
Adam Smentoch
criador do projeto Dust Anthem





