“Whispers in Gloom” – sussurros que voltam toda noite

A primeira faixa mostrou o estado. A segunda mostra que esse estado tem horário: volta depois que escurece, sempre igual.

E no refrão acontece algo que muda o disco inteiro — alguém fala na primeira pessoa.

Quem diz “eu” aqui

O refrão diz: “Though night steals her dreams, I’ll seek her faint flame, a glow in the dark, to carry her name” — mesmo que a noite roube os sonhos dela, eu vou procurar aquela chama fraca, um brilho no escuro que carregue o nome dela.

Até aqui tudo era sobre ela. Agora entra uma segunda voz, e não é a dela. Alguém está olhando, alguém não vai embora e alguém se compromete com algo que ninguém pediu.

Não digo quem é, e não vou dizer em nenhum dos nove posts. Talvez um amigo, talvez eu, talvez o mesmo homem que passou três discos falando de si mesmo. O que importa é que ele está ali — porque sussurros no escuro são os mais difíceis de contrariar sozinho.

O luto tem horário fixo

O pré-refrão volta três vezes sem mudar: “Gloom wraps her tight, it drowns all her light” — a escuridão a envolve apertado e afoga toda a luz dela. Repito palavra por palavra, porque é assim que se vê de dentro.

De dia dá para funcionar. A pessoa trabalha, responde mensagens, parece normal. Só à noite, quando não há mais nada para riscar da lista, volta a mesma frase de ontem. No luto acontecem poucas coisas novas; ele em geral se repete.

Por isso a faixa é construída assim — quatro retornos do mesmo refrão. Se eu tivesse acrescentado uma linha nova a cada vez, pareceria que algo se move. Ainda não se move nada.

Sussurro em vez de grito

Mais de seis minutos, e o momento mais alto é mais baixo que metade de “From Dust to Defiance”. A voz foi gravada perto do microfone, quase sem reverb, de modo que se ouve a respiração entre as frases.

O título obrigou a essa decisão. Sussurros não agem pela força — agem por estarem mais perto do que qualquer outra coisa. Um grito pode ser esperado até passar, porque cansa. O sussurro tem mais resistência.

As guitarras recuam aqui para o papel de fundo, e a faixa é carregada pelo baixo e por golpes isolados de bateria nas passagens. Toda a densidade que este projeto teve no segundo disco só volta na sexta faixa.

O que o ouvinte ganha com isso

Se as noites são mais difíceis para você que os dias, isso não é fraqueza nem falta de caráter. É um horário que quase todo mundo que perdeu algo acaba tendo.

E se neste momento você não é essa pessoa, mas conhece alguém que é — o refrão é sobre você. Não sobre grandes gestos, apenas sobre não desaparecer. “To carry her name”, carregar o nome dela, aqui significa simplesmente: lembrar como ela se chama, quando ela mesma já não lembra.

A terceira faixa é a primeira em que algo começa a se mover. Não por consolo, mas por uma dor que deixa de apenas doer.

Você pode ouvir a faixa no Spotify, Apple Music e YouTube Music.

No próximo post falo sobre “Echoes of Anguish” — sobre como a angústia começa a soar como força.

Obrigado por estar aqui.

Adam Smentoch
criador do projeto Dust Anthem

Ouvir Whispers in Gloom Ann’s Harmony